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A História

Após a retirada das tropas de Soult, o duque de Wellington decide defender Lisboa, para permitir uma eventual retirada do exército britânico, no caso de uma nova invasão. Estratega ímpar, e conhecedor do relatório elaborado pelo Coronel Vincent, em 1807, a pedido de Junot, sobre as excelências defensivas do terreno na região de Torres Vedras, bem como dos estudos topográficos do Major Barreiros e do Brigadeiro Neves Costa, manda edificar aquele que é considerado o mais eficiente sistema de fortificações de campo da História militar. Este sistema defensivo consistia numa tripla linha de redutos de alvenaria, que reforçavam os obstáculos naturais do terreno, formando uma barreira delimitada pelo oceano e pelo rio Tejo. A primeira linha tinha uma extensão de 46 Km e ligava Alhandra à foz do Sizandro (T. Vedras).

A segunda linha, construída a cerca de 13 Km a Sul da primeira, tinha uma extensão de 39 Km e ligava o Forte da Casa a Ribamar. A terceira linha, que consistia no perímetro defensivo da praia de embarque (S. Julião da Barra), acerca de 40 Km a Sul da segunda linha, tinha uma extensão de 3 Km e ligava Paço de Arcos à Torre da Junqueira. Uma quarta linha foi ainda levantada na península de Setúbal, para evitar uma aproximação pelo Sul.

 

A eficiência deste sistema baseou-se em 5 pilares fundamentais

- Linhas de redutos munidos de peças de artilharia, que submetiam a fogo de flanco todas as estradas e desfiladeiros de aproximação do inimigo.

- construção de estradas militares que ligavam as fortificações entre si, permitindo uma rápida deslocação das tropas, no interior das Linhas, e conferindo uma grande flexibilidade ao sistema.

- introdução de um sistema de comunicações telegráficas, adaptado do da marinha, que permitia transmitir rapidamente mensagens entre as duas primeiras Linhas.

- construção das fortificações em segredo absoluto, um dos aspectos mais extraordinários do projecto. Nem Massena, nem o governo francês, inacreditavelmente, tinham conhecimento destas fortificações. Mas também o governo britânico, a quase totalidade dos oficiais do estado-maior do exército inglês e o ministro britânico em Lisboa, desconheciam a sua existência.

- associação de uma política de terra queimada e de desertificação, a Norte das Linhas, que levou à deslocação de cerca de 300.000 habitantes dos distritos vizinhos para dentro das Linhas, apoiando a sua defesa.
No seu conjunto, as Linhas constituiam um verdadeiro reduto armado, defendido por

O Castelo e o Forte de S. Vicente constituiam as duas fortificações mais importantes da vila de Torres Vedras. O Forte de S. Vicente era o mais poderoso forte das linhas, pois defendia a estrada principal de Coimbra a Lisboa. Era formado por um conjunto de 3 redutos, rodeados por um muro perimétrico com cerca de 1.500 m. Comportava uma guarnição de 2.200 homens (podendo atingir os 4.000 homens) e 39 peças de artilharia. Possuía ainda um posto telegráfico.

A construção das Linhas empregou cerca de 150.000 camponeses, recrutados numa área de 64 Km à volta das Linhas. Os trabalhos, sob a direcção geral do Coronel Fletcher, foram dirigidos por 18 oficiais e 150 sargentos britânicos. O custo total da obra rondou as 100.000 libras, constituindo um dos investimentos mais baratos de toda a História Militar.

Esta grande obra deve-se à população estremenha que, durante um ano, teve de abandonar as suas terras para nela trabalhar, mantendo-se, no entanto, respeitadora, industriosa, dócil e obediente para com as tropas britânicas, apesar das barreiras cultural e linguística.

 

Napoleão

Na Primavera de 1810, Napoleão empreende um novo esforço para expulsar os ingleses da Península Ibérica, onde constituíam uma ameaça ao domínio francês sobre a Europa. O General Massena entra com as suas tropas pela fronteira da Beira e, no Buçaco, enfrenta pela primeira vez o exército anglo-português. Apesar de derrotado, Massena consegue ladear o inimigo e progredir para Sul.
O exército inglês recua então para a Estremadura, refugiando-se nas Linhas de Torres Vedras, onde chega a 10 de Outubro. O General francês, com uma força de cerca de 65.000 homens, chega às Linhas no dia 14. Consegue ainda tomar a vila do Sobral de Monte Agraço, mas é depois vencido. Para além das fortificações, o Inverno particularmente chuvoso havia feito transbordar as margens do rio Sizandro, transformando-o numa barreira intransponível. 

Sem conseguir avançar e enfrentando a rebelião dos seus oficiais, a fome, a chuva, o frio, a doença e a falta de comunicações, Massena inicia a retirada das suas tropas na noite de 15 de Novembro de 1810, coberto pelo nevoeiro e deixando bonecos de palha no lugar dos soldados, enganando assim o inimigo e atrasando a sua reacção.

A derrota de Massena nas Linhas de Torres Vedras marca o início da viragem da carreira vitoriosa de Napoleão Bonaparte. Wellesley, por sua vez, foi galardoado por D. João VI com os títulos de 1º Conde do Vimeiro e 1º Marquês de Torres Vedras.

Para homenagear o exército luso -britânico, o município de Torres Vedras erigiu um obelisco no centro da vila, concebido pelo Arq. Miguel Jacobety e inaugurado no dia 10 de Outubro de 1954.

Não podemos esquecer, no entanto, que a Guerra Peninsular assumiu uma violência superior à de quaisquer outras guerras anteriormente ocorridas em Portugal, e que as suas repercussões económicas, sociais e políticas foram muito duradouras. O número de mortos foi superior a 100.000 e muitos milhares de habitantes viriam ainda a falecer em consequência da fome e da falta de recursos que se seguiram à política da terra queimada.

 

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